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sexta-feira, 17 de junho de 2011
segunda-feira, 6 de junho de 2011
O martirio do camartelo
Parábola do calhau que cresce: "Não gostava daquela pedra, e enterrou-a no jardim. Mas aquela pedra cresceu. Aumentou e ficou maior que a casa dele. Fazia-lhe sombra e secou tudo à volta. Tentou olhá-la sem rancor. Diminuiu. Assumiu o tamanho de uma mão e foi esquecida."
Desde a separação, o arquitecto nunca mais a olhou de frente, embora trabalhassem juntos. Um dia, os olhares apanharam-se indirectamente num espelho. Fecharam os olhos e mandaram-se um beijo. Ele construiu uma casa de espelhos e pediu-lhe para viver com ele.
Distraído, olhando a cidade, Lizarede saboreava aquele travo
amargo de loucura como se se tratasse de um cigarro. Às vezes, tinha
visões. Então, sacudia a cabeça como um gato ensonado e voltava a
fixar, de olhos bem abertos, as pessoas que corriam apressadas sob
a vigilância das luzes. Foi dessa vez que a cigana lhe disse que ele viveria até sempre.
sexta-feira, 27 de maio de 2011
Turismo de proximidade
Descobrirei um texto para aqui por disse quando coloquei estas postas com alguma frescura e pouco tempo, pouco brilho mental.
Como podemos fazer deste nosso Portugal um belo país com poucos meios mas com dedicação e asseio?
Onde as velhas reliquias de antigamente tenham alguma dignidade na paisagem.
Onde a pueril ruralidade nos traga o encanto das coisas naturais e o sabor das coisas autênticas.
Onde os espaços comerciais sejam diversos, exclusivos, verdadeiros.
Onde a arquelogia seja encarada de forma alargada sem preconceitos e juizos desintegradores.
Onde a liberdade seja respeitada.
Onde o artesão seja valorizado.
Onde os espaços vivam com gente e dinâmicas de prazer e partilha.
Onde os piores sitíos sejam os melhores sítios onde possamos ser nós próprios.
quarta-feira, 4 de maio de 2011
domingo, 1 de maio de 2011
Transitar
Era uma vez um pintor que tinha um aquário com um peixe vermelho. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor vermelha até que principiou a tornar‑se negro a partir de dentro, um nó preto atrás da cor encarnada. O nó desenvolvia‑se alastrando e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário o pintor assistia surpreendido ao aparecimento do novo peixe.
O problema do artista era que, obrigado a interromper o quadro onde estava a chegar o vermelho do peixe, não sabia que fazer da cor preta que ele agora lhe ensinava. Os elementos do problema constituíam‑se na observação dos factos e punham‑se por esta ordem: peixe, vermelho, pintor – sendo o vermelho o nexo entre o peixe e o quadro através do pintor. O preto formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.
Ao meditar sobre as razões da mudança exactamente quando assentava na sua fidelidade, o pintor supôs que o peixe, efectuando um número de mágica, mostrava que existia apenas uma lei abrangendo tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Era a lei da metamorfose.
Compreendida esta espécie de fidelidade, o artista pintou um peixe amarelo.
Ao meditar sobre as razões da mudança exactamente quando assentava na sua fidelidade, o pintor supôs que o peixe, efectuando um número de mágica, mostrava que existia apenas uma lei abrangendo tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Era a lei da metamorfose.
Compreendida esta espécie de fidelidade, o artista pintou um peixe amarelo.
Herberto Hélder, Os passos em volta
terça-feira, 26 de abril de 2011
Epitáfios desmazelados
O acontecimento que com direito traz a cada um a revelação do sentido da sua própria vida, este acontecimento que ainda não encontrei, mas para o qual caminho, não se concebe ao preço do trabalho.
André Breton
segunda-feira, 18 de abril de 2011
Aqua acima
Como ovnis vão paulatinamente pousando aqui nesta meca da bimbalheira magnificos elefantes brancos, catedrais do consumo em tempos de consumição. Cria-se muito emprego e montam-se as redes para apanhar os ávidos tostões da vanidade. A indústria do turismo exulta. O FMI rejúbila.
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