domingo, 17 de março de 2013

Eleitão - pintor de arte





Pintor de arte, antigo desenhador/ maquetista da Casa da Moeda, Eleitão veio para o Algarve para descansar do rebuliço dos seus vem vividos 76 anos. Mas este homem não pára. Mudou do anterior espaço e montou atelier na rua que dá acesso à estação e lá passa os dias na persistência da pintura. Há um mês atrás passou-lhe pela ideia fazer um grande quadro com o tema da "Jangada do Medusa" de Théodore Géricault e fez uma adaptação ao caso do actual naufrágio português, onde nesta jangada, com a vela uma bandeira na forma do país e perfurada por uma bala, os esfaimados e desesperados protagonistas são a súcia de políticos que tem operado na nação nos últimos tempos. Prostrado ao canto esquerdo, o pintor exaurido segura ainda na paleta.

http://pinturasaoleodeeleitao.blogspot.pt/

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Luis Sapateiro - mito urbano?






Há um lugar de tertúlia, inusitado, numa artéria da cidade. O dinamizador 
é o Sr. Luís, afamado sapateiro conversador que entretém os exasperados 
clientes enquanto lhes remenda os sapatos, as botas, as malas, lhes 
melhora os cintos. Este homem é uma enciclopédia e apanhando alguém que 
lhe dê troco dispara à queima-roupa perguntas tão difíceis como "como 
nasceu a pedra lascada, ou sabe você como apareceu o vidro?" e depois por 
falta de resposta imediata ele explica tudo com requintes de fino trato ao
mesmo tempo que passa a cola de contacto ou liga a lixa para acertar o 
tacão. Com ele pode-se falar de tudo. Ele tem sempre uma opinião com um 
toque de proletariado informado e ávido de uma boa querela situacionista e 
politica. Há senhoras que se impacientam e claro não vale a pena, aquilo 
vai sempre levar o seu tempo e por isso para despachar serviço lá fica ele 
às vezes até às tantas da matina a resolver os múltiplos casos de 
sapataria popular. Uma cadeira e um banco tipo de jardim vão sendo 
revezados ao mesmo tempo que novos vizinhos vão passando por esta 
capelinha das meias-solas. Cliente tem sempre razão e o serviço é bem feito e a bom preço. 
Não se pense que há balda. Ao falar-se de petiscos logo surgem entre o 
digníssimo sapateiro e algum cliente receitas ancestrais e muito próprias 
de uma riqueza humana extraordinária. Ele há sítios por aí mas destes 
especiais não são fáceis de encontrar.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Casa Carvalhinho - Faro








Deambulando pela capital dos Algarves apreciando a especial arquitectura e os desleixados atentados ao património, reparo num estranho cenário de uma loja de esquina com um ar de fim do mundo. Lá dentro é um bric-a-brac em estado calamitoso onde o lojista também vive (come e dorme), com os tectos a cair, uns tachos imundos, e um amontoado de cultura, este tugúrio por incrível que pareça ainda tem alguns clientes. Era uma mercearia mas depois dos pais falecerem o Jorge foi ficando a embalar os fregueses até que mudou de ramo. Para além desta artística loja perdida e do restaurante um pouco atrás já não há mais negócios na Antero de Quental. E para quê, se o fim do mundo é já ali?

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Casa de Pasto do Calvário


O amigo Carlos da Casa de Pasto do Calvário é um dedicado e talentoso anfitrião do bom petisco. Gosta do que faz e  sempre tem comidas apetitosas e bem confeccionadas. Como tem um excelente sentido de humor transporta-o para as mesas de bancos corridos desta autêntica casa de pasto à antiga. A feijoada de búzinas e os alimados são peça fundamental, nas sobremesas destaco as magníficas pêras bêbadas. Aos domingos anda por lá um cozido porreiro ao almoço e o fado é presença assídua à noite com a Maria da Saudade, a Sara Raquel e o Manelito . Como passo por lá todas as quintas e recebo muita vez uma prova de petisco (este aqui é dobrada) quis saber mais da maneira como ele se lançou na restauração. Foi mais ou menos assim: quando era moço era carpinteiro de limpos, janelas, portas, soalhos e afins, teve de ir para a tropa e lá aprendeu a cozinhar, quando voltou a construção teve uma das suas ciclicas crises e ele arranjou trabalho em colocação de persianas.

 O dono da empresa das persianas estava a montar um bar em Armação de Pêra, o Kubata, e o Cárlinhes que não se dá parado e percebia de madeirame foi o homem certo para erguer o bar de praia que ainda hoje perdura. No verão meteu-se a assar o belo do peixinho e até arranjou namoro com uma suiça que apreciava os dotes do assador...



Depois dedicou-se à restauração por inteiro e fez muitas casas. Agora é aqui no Calvário em Estômbar que se entretém a animar a malta, estrangeiros e nacionais, vizinhos ou forasteiros. Todos são bem vindos.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Zé do Leitão




Zé do leitão assado
Urb. Quinta de S. Pedro, nº 121 – Portimão (em frente ao Aqua)

Já há tempos que queríamos experimentar o leitão assado em Portimão. Por acaso estando no Aqua surgiu a hora do almoço e a ideia do leitão pareceu boa. Era mesmo em frente à bomba de gasolina. Mas as aparências iludem como diz o ditado. O sítio até é simpático, em mesas postas com pratos de barro e toalhas vistosas aos quadradinhos azuis e brancos, quadros e fotografias com motivos africanos, asseio e bom atendimento. Óptimas azeitonas verdes e bom pão tipo alentejano vieram para a mesa. Depois pedimos o leitão frio ou morno e assim veio acompanhado com batatas fritas caseiras cortadas às rodelas com uma rodela de laranja e pickles a enfeitar o gosto. Mas este leitão deixa bastante a desejar por outras paragens onde ele toma proporções de iguaria lacada no forno e objecto de múltiplos prazeres carnívoros. Este para além de ter um saborzinho duvidoso, com a crise as comidas passam de uns dias para os outros, não indiciava frescura e tinha a pele queimada. A música brasileira começou a ressoar na cabeça e saímos um pouco gordorosos do paladar, mesmo regado a minis pretas. Há take away, pratos do dia e outros como bacalhau na brasa, cabrito assado e picanha, mas este lugar apesar de barato não deixa saudades.




segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Barquinhos e memórias




Em giro de acaso demos, eu e o meu filhote, com o Sr. António Jorge Duarte, 82 anos, antigo pescador de bacalhau. Vi os barcos pela nesga do portão e perguntei se podia vê-los, sem demora estavamos todos entusiasmados a contemplar os artesanais barcos e a ouvir as histórias do velho marinheiro. Depois mostrou-nos a sua peça principal, o Titanic, gloriosamente feito a partir de uma fotografia. Prometemos continuar.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Da Gâmbia



O Saiddy é da Gâmbia, um peculiar país africano em forma de enclave lavrado a espaço de canhão nas margens do rio Gâmbia e rodeado de Senegal. Falam inglês numa redondeza de francês. Foi embarcadiço durante muitos anos e conheceu o mundo, os grandes portos de Singapura e da China. Fala do espanto do que é a imensidão do poder chinês, tanta gente como Africa, Europa e Oceania juntas. Também andou por Espanha mas por lá os desempregados já perfazem mais de 5 milhões. Veio para Portugal para a construção mas o patrão morreu. Agora vive de esmola e dorme em sítios abandonados, bebe vinho em garrafita de plástico para entreter a desgraça e embalar a simpatia. Fica ali no relvado do Lidl com o seu rádio a pilhas, descalça-se e aguarda tranquilo a mudança de poiso. Nada de fotografias, sorry.