sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Sem poeira e com céu azul




Sob um grande céu cinzento, uma grande planície empoeirada, sem trilhas, sem gramado, sem um cacto, sem uma urtiga, encontrei alguns homens que caminhavam curvados.
Cada um deles levava às costas uma enorme Quimera, tão pesada quanto um saco de farinha ou de carvão ou os apetrechos de um soldado romano.
Mas a monstruosa besta não era um peso inerte, ao contrário, ela envolvia e oprimia o homem com seus músculos elásticos e potentes; ela agarrava-se ao peito de sua montaria, com suas duas vastas garras e a cabeça fabulosa sobrepunha-se à fronte do homem, como um desses capacetes horríveis com os quais os antigos guerreiros esperavam aumentar o terror dos inimigos.
Questionei um desses homens e perguntei-lhe para onde iam assim, Ele me respondeu que de nada sabia, nem ele nem os outros; mas que, evidentemente, iriam a algum lugar, pois eram impulsionados por uma invencível vontade de andar.
Coisa curiosa de se anotar: nenhum desses viajantes tinha um ar irritado contra a besta feroz pendurada em seu pescoço e colada às suas costas. Dir-se—ia que as consideravam como fazendo parte deles mesmos. Todas essas faces fatigadas e sérias não testemunhavam qualquer desespero; sob a cúpula entediante do céu, os pés afundados na poeira de um chão também tão desolado quanto este céu, eles caminhavam com a fisionomia resignada dos que são condenados a esperar sempre.
E o cortejo passou a meu lado e se afundou na atmosfera do horizonte, no local onde a superfície arredondada do planeta se furta à curiosidade do olhar humano.
E durante alguns instantes eu me obstinava em querer compreender este mistério, mas logo uma irresistível indiferença se abateu sobre mim e eu fiquei mais pesadamente oprimido do que eles próprios por suas esmagadoras Quimeras.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Genéricamente 4 L (parte 1)





Talvez fosse de repente, ou então desatenção, mas eu até sou fã das 4L e ainda não tinha visto tantas seguidas. Será da crise? a malta vai às garagens buscar as velhas latas resistentes que dão um toque retro por onde passam. Oh tempo volta para trás. É o virar da máquina. Tempos de flippers e flipanços.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Cidade em tons de azul






Portugal e Portimão em depressão progressiva. Eu próprio não me estou a sentir nada bem...

Gaivotas ao camarão




É o resto do luxo, meu povo!

Salvatore Giannini - caminhante


Encontrei-o a beber um galão no Cárlinhes do Calvário. Queixava-se da humidade pois dormia ao relento em pleno Inverno. Destrocou a sua maneira de ser caminhante por convicção e de como já percorreu inúmeros países: Alemanha, França, Itália, Espanha, Portugal, Turquia, ex-Jugoslávia... sempre a pé. Tinha uma ética muito dele. É de origem italiana, de Napoli. Foi carteiro numa pequena localidade perto de Munique só o tempo necessário para poder criar a filha. O que ele faz é mesmo caminhar. No entanto para além de uma grande mochila também transporta 2 sacos. Não se lamenta a não ser das condições climáticas. Veio de Espanha foi até á Costa Vicentina mas as condições climatéricas fizeram-no voltar para seguir pelo Mediterrâneo. Tem é de ter 2€ para poder passar de barco de VRSA até Ayamonte. Eu cá como sou um gajo um bocado com a mania disse-lhe que podia começar a escrever um bloco com haikus cruzando a memória com o presente...
Dei-lhe boleia até Carvoeiro e ele foi matar saudades do mar.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Ilusão de um skateboarder






«As ilusões», dizia-me o meu amigo, «talvez sejam em tão grande número quanto as relações dos homens entre si ou entre os homens e as coisas. E, quando a ilusão desaparece, ou seja, quando vemos o ser ou o facto tal como existe fora de nós, experimentamos um sentimento bizarro, metade dele complicada pela lástima da fantasia desaparecida, metade pela surpresa agradável diante da novidade, diante do facto real».

Charles Baudelaire, in 'Pequenos Poemas em Prosa'

Let's go down to chinatown








A grande cidade dos arranha céus vive dias de um calado desespero. As peças continuam no mesmo sitio mas não se vê jogadas com certeza e apuro. Fazem-se pequenos movimentos de ajuste mas na generalidade anda-se com as calças na mão à procura de um arbusto retemperador. A escassez de dinheiro, de trabalho e de pessoas deixa no ar um perfume de nojo só comparável com o verdadeiro que contamina a vila velha quase todos os dias. Uma industria do cócó e do desmazelo.